Um espaço para reflexão...
 

Crónicas

De luxo & Pensamento Nova
Manifesto eleitoral
Notas sobre o início de mais um milénio - 2
Apontamento sobre a ignorância
Notas sobre o início de mais um milénio - 1
Prelúdio de um mundo em guerra

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De Luxo & Pensamento

            Apesar do óbvio descalabro das políticas sociais e económicas do neoliberalismo ocidental, a direita política insiste no discurso de ataque à esquerda sob a efígie da competitividade da economia. Podemos, de facto, eliminar todas essas forças de bloqueio à competitividade económica, como o ordenado mínimo. a segurança social e o despedimento com justa causa. Numa fase posterior, até poderia mesmo ser eliminado o salário e os trabalhadores serem recompensados com bilhetes de autocarro e vales–refeição em estabelecimentos de fast–food mas, em qualquer destes casos, de que nos serviria, então, a sociedade? Qual seria a utilidade do mundo ocidental para o trabalhador comum que não fosse o grande sentimento patriótico de contribuir para o crescimento da riqueza de uma muito reduzida elite e para melhorar o aspecto de um dado falacioso como o Produto Interno Bruto?

            Em troca da liberalização absoluta dos mercados, entenda–se, do aumento da competitividade, a Europa encontra–se agora perante o quase inevitável fim da segurança social e do estado–previdência. Os europeus estão em vias de extinção devido ao facto de em cada ano que passa ser mais difícil para os jovens casais poderem terem filhos, pelos custos em escalada e pela fraca disponibilidade que lhes é deixada por empregos cada vez mais exigentes em termos de período de trabalho e cujas carreiras se iniciam progressivamente mais tarde. A especulação imobiliária retirou os cidadãos das proximidades dos seus postos de trabalho para os colocar em subúrbios que não passam de simples dormitórios e em redor dos quais os contribuintes se viram forçados a gastar milhões em infra–estruturas de transporte de massas para nelas passarem uma boa parte do dia, entregando de bandeja mais milhões às concessionárias privadas que as gerem e às indústrias petrolíferas. A saúde torna–se também ela cada vez mais num bem de difícil acesso e as famílias endividam–se para garantir os luxos que a sociedade ocidental tanto apregoa como a sua mais–valia. O capitalismo transformou a Democracia na possibilidade de escolha entre vinte marcas diferentes de electrodomésticos e o Estado numa instituição gerida por uma elite de burocratas cuja finalidade é criar leis que facilitam a vida de uma elite de tecnocratas.

            Enquanto o novo milénio se desenrola a uma velocidade demasiado vertiginosa para possamos entender todas as suas consequências, os direitos pelos quais os trabalhadores tanto lutaram e cuja conquista tanto custou estão em risco. A crise, essa, não parece nunca afectar as chamadas “classes dominantes”, pelo menos negativamente, como se pode facilmente observar pelo aumento do comércio de bens de luxo inacessíveis ao comum dos trabalhadores, como automóveis e habitações de luxo. A classe média encontra–se sob pressão, pois o patronato prefere, de longe, investir na crescente população imigrante, silenciosa, obediente e pouco exigente, mesmo que do púlpito político se insurja contra todas e quaisquer políticas de integração desta massa laboral de baixo custo. Resta–nos, pois, saber o que vai suceder aos europeus quando todas as nossas empresas se apinharem em Vladivostok e Bombaim, paraísos onde entraves à competitividade como essas maléficas leis que dão direitos aos trabalhadores forem mais laxas ou inexistentes.

            Talvez os europeus voltem a adquirir o interesse pela luta dos seus direitos quando o desemprego, a ameaça de desaparecimento da sua cultura e o sobre–endividamento se tornarem problemas incontornáveis, o que significará, talvez, que despertaram demasiado tarde. Até essa altura, os grandes capitalistas europeus já terão saqueado o nosso continente e desfrutado de todas as mais valias que a pilhagem lhes permitiu enquanto a maioria da população estava demasiado ocupada a fazer zapping entre dezenas de inócuos canais de televisão por cabo, a jogar em consolas de jogos electrónicos que custam um ordenado ou mais, a desejar parecer–se com top–models, estrelas de telenovela e socialites e a afogar a História no campeonato de futebol e em catálogos de moda.

Harpad © 2006

 

Manifesto eleitoral

Mesmo ao raiar de um novo milénio torna–se claro quão dependente é o nosso país de um figura messiânica. Reencarnado debaixo da capa de candidato presidencial, eis que esta mítica figura regressa ao palco do nacional–futurismo, preparado, como que por convenção divina, para nos salvar de uma bancarrota que já vem sendo anunciada pelo menos desde 1580. Refiro–me, claro, ao mui nobre candidato presidencial apresentado com pompa e circunstância pela fidalguia de direita, Cavaco Silva, essa encoberta figura.

Dez anos apagaram–se rapidamente da memória dos portugueses, dez anos em que o “génio da economia” transformou com sucesso o nosso país no paraíso da mão–de–obra barata quando deveria ter investido na qualificação profissional, no jardim das delícias dos empreiteiros e do turismo de massas, na terra do desinvestimento cultural, científico e social, do clientelismo e da política do subsídio desregrado que destruiu a nossa agricultura e cultivou de maus hábitos a inovação técnico–industrial. Como podem, pergunto–me, os desempregados, os mal–pagos, os idosos, os milhares (muitos ultra–qualificados) de emigrantes que tiveram de abandonar a sua terra por falta de oportunidades pensar que a crise e o atraso social foram fruto de acontecimentos iniciados somente durante os últimos anos e governos?

Mesmo sem contemplar o passado podemos também reflectir no presente, mais especificamente no perfil deste candidato. O Presidente da República deve ser uma figura sóbria e imparcial mas sempre atenta e preparada para avaliar e julgar os acontecimentos nacionais e internacionais, coisa que este senhor não é capaz de fazer, como sobejamente demonstrou nos presentes debates. O Presidente da República deve ser uma imagem da cultura nacional e não um indivíduo que aparenta nunca ter lido um romance na vida, português ou não, e chegou mesmo a referir–se aos “doze cantos d’Os Lusíadas”. Este senhor prima pela sua austeridade e autoritarismo e também pela falta de ideais, vícios e gostos, enfim, todas as características que simbolizam um ser humano, razão pela qual muitos o considerarão como uma figura de origem quase divina. Onde estão as opiniões deste senhor sobre a crise que atravessa o país e a Europa, o desemprego e a imigração, o terrorismo e a guerra? O que tem este senhor a dizer, pois esse será boa parte do seu papel enquanto Presidente da República, aos portugueses e ao mundo?

Cavaco é levado aos ombros do povo português como uma relíquia religiosa durante uma procissão de província para pedir indulgência divina durante tempos difíceis. Não se trata de uma divindade, contudo, e convém relembrar aos portugueses de que se trata da eleição de um Presidente da República e não de um chefe de governo com poderes legislativos para resolver uma crise financeira. Os Messias não existem e do que o país necessita na realidade é de ideias, ideais e de competência.

Harpad © 2005

 

Notas sobre o início de mais um milénio - 2


            A questão do terrorismo é complexa. Muito mais complexa, na verdade do que muitos pensadores e políticos deste nosso novo século gostem de admitir. Penso que é claro, cada vez mais a cada novo dia que passa, que a guerra contra o terrorismo não é ganha com artilharia pesada, mísseis inteligentes nem outras formas de esbanjamento massivo de riqueza. Para que algo tão global e de difícil resolução quanto o terrorismo é necessário proceder a um profundo conhecimento das suas causas, algo que a nossa mentalidade capitalista, habilmente treinada para o imediato e fácil, não aparenta vontade nem perspicácia para empreender. Não é difícil verificar que, no mapa–mundi do terrorismo, são os povos mais desfavorecidos, explorados e humilhados, portanto, os que menos têm a perder, aqueles que mais facilmente produzem indivíduos dispostos a amarrar–se a substanciais quantidades de explosivos e detoná–los em ódio contra outros povos, mesmo aqueles que lhes dão guarida, como infelizmente pudemos voltar a verificar recentemente. Também não é difícil imaginar que um povo instruído, com acesso ao emprego, à educação, à segurança social e a pequenos luxos que saem do seu trabalho, coisas que nós temos como garantidas, não só seja menos propício a criar bombistas–suicidas como também seja manifestamente contra o terrorismo, numa espécie de mecanismo de auto–controlo social. Veja–se o exemplo da Irlanda, por exemplo. Não se trata de uma coincidência o enorme desenvolvimento sofrido por este país nos últimos anos quando, em contra–mão, o IRA perde força e simpatizantes e como, se verifica neste momento, prestes a abdicar definitivamente da luta armada. Os irlandeses prosperam e, a par deste desenvolvimento social, surge um inevitável desenvolvimento de mentalidade, muito mais útil e sólido do que décadas e décadas de diálogo infrutífero precedente. É, contudo, extremamente difícil alertar políticos e opinião pública para a questão do desenvolvimento social como arma contra o terrorismo quando o ódio, a indiferença e a ignorância são valores profundamente impregnados na nossa sociedade, mesmo que de uma forma latente. Invadir, anexar e humilhar um país não parece, portanto, a melhor solução para acabar com o terrorismo, pelo contrário, parece uma factor excelente para despoletar o ódio de uma geração inteira contra nós, mundo ocidental, precisamente numa nação já de si martirizada por uma guerra anterior e um embargo brutal por nós impostos e que não detinha, como agora parece ponto assente, ligações ao terrorismo internacional. Refiro–me, claro, ao caso do Iraque. Poderão argumentar muitos filósofos, desses que comparam a invasão com o nosso 25 de Abril(!) que a mesma precede o processo de desenvolvimento. Aquilo que se observa, no entanto, é o petróleo a escorrer do Iraque directamente para os navios–tanque de grandes multinacionais enquanto o país se deteriora numa não assumida guerra civil, sem esperança de fim e sem reconstrução visível. Situação esta que se prolonga há já dois anos. Péssima amostra damos nós da democracia, da tolerância e do desenvolvimento que adornam os nossos argumentos a favor da globalização do capitalismo. Até hoje, na verdade, ainda permanece por explicar a necessidade de impor uma democracia quando, desde a Grécia Antiga, ela tem surgido espontânea e inevitavelmente a partir dos povos. Impõe–se, afinal, um regime ou um sistema económico? Na falta de todos os outros, o argumento restante a favor desta invasão consiste no derrube de um ditador. Resta, assim, também explicar se o mesmo motivo se aplicou, por exemplo, a Salvador Allende. Gostaríamos nós de ter visto tanques americanos a patrulhar uma ruinosa Lisboa em 1974?

            Um outro aspecto óbvio relacionado com o terrorismo, nomeadamente o islâmico, prende–se ao agregar das massas em redor de figuras religiosas que substituem o poder político nos países que mais bombistas–suicidas produzem. Apregoar o ódio e doutrina religiosa em países cuja população se encontra empobrecida e, portanto, mais receptiva, não é tarefa difícil. A religião, pelo menos desde os tempos das Cruzadas, tem sido utilizada de todas as formas possíveis para manter o controlo de uma minoria sobre uma maioria e justificar guerras e carnificinas. Apesar deste facto, cada ideologia que ataca o tecido religioso vigente numa sociedade sofre um ataque impiedoso. Deu–se, por exemplo, ainda na primeira metade do século XIX perante o Comunismo, logo, um século antes de Gulags e KGBs, Stasis e similares terem sido os melhores argumentos dos sectores conservadores da sociedade, radiantes por os possuírem e incansáveis a citá–los. Ainda hoje tal sucede, quando a esquerda ousa levantar um pouco mais a voz. Quando a URSS invadiu o Afeganistão, determinou o fim do ensino religioso, dos ditames castradores do Islão e retirou o poder aos sacerdotes. A CIA encorajou, por seu lado, Talibans e Bin Laden ao dar–lhes armas para combater esses infames infiéis que pretendem desde sempre atacar o precioso tecido moral de qualquer sociedade. Actualmente, o resultado está à vista de todos. Eventual e inevitavelmente as ditaduras de leste caíram e os vencedores fundamentalistas, no passado chamados de Lutadores pela Liberdade tornaram–se no pior pesadelo do mundo ocidental. Considerando esta situação, interrogo–me sobre o que teria sucedido se a URSS tivesse sido bem sucedida neste lugar do mundo. Observo também com curiosidade que as infraestruturas que este país possui, por poucas e degradas que sejam datem da era soviética, enquanto que o mundo ocidental dito civilizado e democrático pouco ou nada fez para desenvolver o país, que se encontra, aliás, novamente à beira do colapso. E com isto não pretendo, nem posso, defender o regime soviético e seus associados mas pretendo salientar algumas diferenças fundamentais entre as mentalidades socialistas e as capitalistas.

            Enquanto o mundo ocidental mercantil treme e ameaça ruir cada a cada frémito bolsista, de origem interna ou externa, as nossas fronteiras encontram–se ameaçadas por hordas, massas e povos inteiros que as tentam quebrar: uns porque pretendem aceder ao nosso estilo de vida, outros porque nos odeiam por não lhe permitirmos usufruir do mesmo nos seus países de origem. Criamos e ampliamos, assim, um grande fosso entre nós, os ricos, e eles, os pobres. Escavámo–lo com a economia e o imperialismo e guardamo–lo com armas inteligentes, porta–aviões e satélites. Até quando durará esta barreira ninguém sabe ao certo, mas já se entende que não durante muito mais tempo. Não são a caridade nem a guerra que irão resolver os problemas do nosso mundo. Não é distribuir parte do luxo de que usufruímos que acabará com a pobreza mas sim permitir que outros usufruam de bens essenciais ao abdicarmos nós próprios de os ter, coisa que não faremos. A guerra gera apenas mais ódio mas este ódio alimenta a indústria das armas. O mundo ocidental abdicará parte do seu produto interno bruto pela paz?

                                                                                                                                             Harpad
© 2005

 Apontamento sobre a ignorância

 

             Num outro dia ouvi alguém dizer que é um dever cívico fugir aos impostos. Da declaração surtiria, numa qualquer ocasião, um simples sorriso ou, quanto muito, uma ligeira gargalhada, não fosse a seriedade que quem a proferiu aplicou num acalorado discurso, com um seu concidadão, sobre a actual situação nacional. Nós somos o povo que, desde o tempo do Desejado, se limita a esperar. O quê não sabemos, mas esperamos estoicamente. É frequente ouvirmos barbaridades como a que descrevi anteriormente, juntamente com Isto devia ser Espanha, ou ainda Quem me dera ter nascido Alemão ou o clássico dos clássicos, Na América é que se está bem. Do que nós nos esquecemos é de que o que os espanhóis, alemães e norte–americanos têm não lhes caiu simplesmente do céu, mas foi construído com muito Sangue, Suor e Lágrimas, se me permitem o emprego de tal lugar–comum. Se não, ora vejamos: Espanha, aquando da morte de Franco, estava pelo menos na mesma crítica situação de Portugal, ou talvez mesmo pior, em virtude de quarenta anos de um regime desprezível e da mais desastrosa guerra civil de que há memória, entre outros factores histórico–sociais que datam de Filipe I. Para nos terem ultrapassado (e muito) em menos de uma década (as diferenças já eram notórias a meados dos anos oitenta) alguma coisa terá acontecido (poderá o Socialismo estar relacionado?...). Sim, aconteceu, e chama–se dedicação e trabalho. Os Estados Unidos fizeram–se do nada, logo palavras para quê, e os alemães sobreviveram a duas guerras mundiais e um muro e hoje são uma potência inquestionável. Não são, meus caros compatriotas, as condições azinhagas e as catástrofes que enterram as nações em depressão social e económica, mas sim a apatia, o desespero e a ignorância. Dói–me muito dizer isto, destrói–me a alma admiti–lo, mas tenho de o fazer: nós reunimos de tal modo estas características que obliteramos todas as nossas grandes virtudes, e há muitas. A nomear, a capacidade de trabalho (seriamente comprovada, se não me acreditam, pelos patrões dos portugueses no estrangeiro), a inventividade e a criatividade, a afabilidade com que recebemos os que nos visitam e a quem de bom grado nos damos a conhecer. Por ora refiro apenas estas, mas outras existem no comum português.

            Mas então de quem é a culpa, se essa medonha coisa existe? De cada português? de cada governo? Sim e não. Os portugueses têm a culpa de terem tomado as decisões erradas durante os curtos períodos de verdadeira Democracia, mas, é preciso dizê–lo, os nossos governos e governantes têm sido desastrosos. Uns porque são incompetentes, outros porque praticam a incompetência em nome deles próprios e de uma minoria. Sempre achei, e continuarei a apregoá–lo: o Conhecimento muito faz pela terra dos Homens. Uma Democracia sem Conhecimento é incompleta, pois para se elaborarem escolhas é preciso conhecerem–se todos os pontos de vistas e todas as alternativas. Um povo ignorante é um povo forçosamente apático e indeciso, pouco cívico e muito dado a ser governado por uma pequena corja de vendidos e aldrabões, vulgo, Classe Política, essa coisa que não deveria existir em Democracia nenhuma, uma vez que é o povo que deve governar, assim o reza a Constituição, e são os interesses do povo em geral que devem ser favorecidos e não os das elites.  

            Tendo dito isto, resta–me lamentar que no meu país as tentativas de implementar uma boa e sólida educação se tenham ficado por breves períodos após duas importantes revoluções, 1910 e 1974. Se no, primeiro caso, é difícil esclarecer em que altura precisa a república se afundou no caos político e social (com um Presidente–Rei algures lá pelo meio), no segundo... bem... se calhar a SocialDemocracia e o PseudoSocialismo vigentes após 1975 não nos foram assim tão positivos quanto isso (e não apenas nesta área!) e certamente não a DemocraciaSocialite que nos tem regido (se ao menos isso se pode dizer) nos últimos quatro meses e da qual esperamos sair no início do próximo ano.


            Noto que uma boa e sólida educação não implica apenas escolas, universidades e muitos menos regressarmos ao estudo dos afluentes de ambas as margens dos principais rios portugueses nem ao ensino superior do tipo escolástico. A escola é muito, mas mesmo muito mais do que isso. Começa em casa, passa pelas ruas, continua pelos média e por aí fora. Como medida inicial, que tal garantirmos que todos recebem uma boa educação e as mesmas oportunidades, independentemente do seu estrato social?... Será que alguém já reparou em como é difícil para os economicamente menos favorecidos obter uma educação digna? Um curso superior? Quantos génios estaremos a desperdiçar? Quantas gerações estamos a condenar à ignorância?... Quantas más escolhas faremos ainda?...

                                                                                                                                             Harpad © 2004

 

Notas sobre o início de mais um milénio – 1

 

           Os mais nobres fidalgos da direita intelectual gostam de juntar comunistas, socialistas, estalinistas e maoístas e outros todos no mesmo saco. Seguindo o mesmo raciocínio, poder–se–ia fazer o mesmo com as várias ideologias de direita, juntando democratas–cristãos, sociais–democratas, fascistas e nacional–socialistas todos no mesmo embrulho? Que não se esqueçam estes senhores que devem todas as liberdades que tanto apreciam à esquerda e não à direita, trata–se de um facto histórico que os incomoda, arranha e frustra ao ponto de os levar ao ódio a tudo aquilo que se lhes assemelha vagamente progressista. À social–democracia devemos, na melhor das hipóteses, uma boa gestão de qualquer regime capitalista, mas, pelo menos no nosso país, nem isso temos tido. Ficámo–nos por uma democracia socialight. E enquanto todas as políticas sociais arduamente conquistadas e implementadas após o 25 de Abril se desvanecem nas mãos ávidas de vingança da direita o povo português permanece impávido, esgotado pela luta diária pelo ganha–pão, quer este se busque ou se procure manter, por mais que precário. Tudo isto para não falar nas condições humilhantes e neoesclavagistas a que se sujeitam os imigrantes, essa conveniente, inesgotável e silenciosa massa de mão–de–obra barata que todos os dias aflui até nós.

            Enquanto os ideais contrários ao sistema vigente se desvanecem sob o peso das modas e preconceitos eles esfregam as mãos, insaciáveis, bem do alto dos seus poleiros excessivamente bem remunerados, de dentro das suas casas e automóveis caros. A crise até eles não chegou, nem chegará, basta olharmos para o negócio dos bens de luxo para o percebermos, enquanto para os trabalhadores, desempregados e jovens a vida se torna numa ingrata luta travada dia–a–dia.

            Outros sinais de um futuro que muitos, como eu, não desejam, provém da mentalidade arcaica que novamente se abate sobre nós, procurando enterrar as revoluções sociais, artísticas, sexuais e individuais que o século XX nos trouxe. Existem cruzadas contra cada uma das nossas pequenas liberdades, como a de puxar de um cigarro, ostracizado sob o lema da saúde (embora não a qualidade do que comemos, o ambiente, a perda de horas de sono, entre outros factores, que mais matam pelo mundo dito civilizado fora) e até a de dizer Merda e Fodam–se, censurados como obscenidades enquanto guerras se travam sob desígnios duvidosos em que cada vida inocente é considerada um dano colateral aceitável. Até a emancipação feminina, talvez o mais importante fruto do século que findou se converte num humilhante sistema de quotas, brilhante ideia de uma sociedade machista que prefere conferir esmolas às mulheres em vez de lhes reconhecer competência. O pior absurdo surge agora com a pretensão de serem criadas quotas para homens nos cursos de medicina. Se os homens, como eu, estão preocupados com o sucesso feminino, que nos esforcemos mais o atingir. Creio que é uma óbvia solução para todas as pessoas com dois deditos de testa, mas não para este governo de claras pretensões neo–salazaristas, assim como se me afigura que uma meia dúzia de homens e arrisco, de mulheres, machistas se vêem ameaçados por uma maioria feminina e mais competente.

            Depois deste breve desabafo resta–me perguntar o que é feito do sonolento povo, não só português, mas pelo menos europeu, enquanto aquilo porque tantos lutaram se desvanece diante dos seus próprios olhos. Talvez a abstenção demonstre bem o merecido desprezo que os povos sentem pelos políticos, mas também retira–nos o poder e a voz. É hora, e talvez já tarde, de despertar.
                                                                                                                                             Harpad
© 2004


Prelúdio de um mundo em guerra

       A guerra não traz a paz
. Nunca o fez nem nunca o fará. Ela é movimentada pelos desígnios de uma perigosa e crescente direita populista que se tem vindo a apoderar do mundo inteiro ao longo dos últimos anos e que, dados os movimentos que ocorreram a nível mundial nos finais do século XX, é apenas estorvada por um derradeiro tipo de ismo: o Pacifismo. Talvez seja por isso que todos os que a defenderam a ela se tivessem agarrado como crianças mimadas com o seu brinquedo novo, o seu precioso. Ignorando um direito básico da democracia, que consiste na liberdade de discordar, todos aqueles como, eu, pacifistas, que se lhe opuseram, foram rapida e categoricamente apelidados de cobardes, irrealistas, terroristas, anti–americanos e até mesmo nazis. Comunistas seríamos se tal ainda significasse algo nos dias de hoje. Refiro–me, claro, à guerra do Iraque.

Como pode ser comparado o que aconteceu no Iraque, um país agora devastado pela guerra, onde morrerem milhares de pessoas, a maior parte dos quais, inocentes, e onde continuam a morrer e mutilar–se muitos outros todos os dias, um país anexado por uma potência estrangeira, com a nossa Revolução dos Cravos? Não bastava já a miséria causada por décadas de uma ditadura cruel?

Onde estão os motivos? Onde se encontram essas armas de destruição maciça, essas ligações fenomenais ao terrorismo internacional que ditaram a pena de morte de um país? Os motivos estão lá, contudo, e são muito fortes. São mais antigos do que os horrendos acontecimentos do 11 de Setembro. Datam da campanha presidencial do Sr Bush, fortemente financiada pela indústria das armas, da construção e do petróleo, cavalheiros esses que hoje retiram do Médio Oriente todos os dividendos que mais lhes interessam, com a segurança garantida por uma eficaz manobra de propaganda nacionalista e imperialista empreendida pela administração Bush e seus comparsas de todo o mundo.

A paz, essa, não foi conseguida, como se pode ver nos jornais diários e nas televisões. Pelo contrário. Mais uma semente de ódio foi plantada no mundo. Crescerá e multiplicar–se–á. Implicará mais guerras e trará mais poderes e fortuna a quem ela lhes convém, no presente e no futuro. As gerações vindouras pagarão o seu preço. O preço do ódio e da impunidade.

Entristece–me ver que muitos não entendem a gravidade destes acontecimentos. Para além do ódio e da miséria criados, surge agora a inutilidade de uma comunidade internacional livre e apaziguadora. Entrámos num mundo que os governos legítimos ou não (lembro–me do caso chileno) são mudados a bel–prazer pelos países mais fortes com recurso à guerra se necessário. Não percebo a liberdade que tanto apregoam. Aquela que conheço e em que acredito é algo natural, que desponta de todos os povos, que mais cedo ou mais tarde se instala nas nações e é consolidada pela vontade dos cidadãos. Nos, os portugueses, somos um bom exemplo disso mesmo. Precisávamos de ser anexados por alguma potência estrangeira? Têm flores comparação possível com o fogo das armas? Valeria a pena termos sofrido uma guerra, vermos os nossos recursos pilhados, milhares de cadáveres nas ruas e a nossa identidade nacional posta em causa para que o 25 de Abril ocorresse dez anos antes? Ou mesmo vinte?

Condeno o anti–americanismo porque não compreendo como se pode desprezar algo tão grande como um país inteiro. Cada país tem boas e más coisas. Grandes e medíocres pessoas. Os EUA deram muito ao mundo e certamente o continuarão a fazer. Contudo, tal não lhes confere impunidade sobre os seus próprios actos. A mentalidade americana identifica–se com o Sr Bush, habilmente manobrado pelos seus falcões de Washington. Uma mentalidade de rodeo, colt e chicote. A mentalidade da lei de Lynch e da divisão do mundo entre aqueles que pensam como eles, os bons, e os outros, os maus. Tal como no passado, coisa que os americanos não podem entender porque como nação são crianças, qualquer império que se recuse a ouvir a voz do mundo, recusa–se igualmente a aprender e por isso ruirá. É inevitável. Aconteceu com o primeiro império do mundo contemporâneo, o Português, e com todos os que se seguiram.

O Sr Rumsfeld sorriu ao dizer a boa e velha Europa, quando se apercebeu que os europeus não morderam o engodo da guerra no número que esperava. Os americanos acharam–nos cobardes e ingratos e cavalgaram sozinhos em direcção ao pôr–do–sol no faroeste. Esquecem–se, contudo, que se juntarmos todos os americanos caídos em combate, da Revolução ao Iraque, passando pela Guerra Civil, a mais destrutiva luta fratricida de sempre, as guerras mundiais, o Vietname, os atentados terroristas e muitos outros casos, o número de vítimas não chega aos calcanhares do que a boa e velha Europa sangrou durante a Primeira Grande Guerra apenas. E Aqui ocorreram duas Guerras Mundiais. E também as lutas Napoleónicas e a Guerra civil de Espanha e a Guerra dos Cem anos e o conflito nos Balcãs e o Holocausto e Hitler e a Cortina de Ferro. Tudo isso e muito mais ocorreu aqui. Na Europa. Na Europa céptica, pessimista e talvez um pouco cansada. Mas eles nunca o entenderão. Afinal, a Blitzkrieg não caiu sobre Nova Iorque. O 11 de Setembro foi uma catástrofe inqualificável, tanto mais que foi gerada pelo ódio, é indiscutível, mas os Americanos nunca ouviram falar de Guernica e quanto a Londres, Paris, Berlim ou Estalingrado arrasadas pelos bombardeamentos de uma guerra que matou trinta milhões de europeus (ou serão bastante mais?), ficam muito longe da Broadway e de Las Vegas. Muitos não o entendem, mais ainda já esqueceram o que é a guerra, incluindo muitos europeus, e as desilusões surgem a cada esquina neste nosso novo mundo.

Afinal, tudo se resume a uma questão de poder e de dinheiro. Neste aspecto, pouco mudou desde a Idade Média. Mas os americanos não sabem porque não a viveram. A mentira é arma de ataque dos populistas e dos imperialistas. Reservo–me o direito de a contestar, pois este é um mundo democrático. Atentem bem, senhores, que a democracia que tanto custou a conquistar, os nossos direitos, as nossas liberdades não nos foram entregues pela direita, mas sim pela chamada esquerda que tanto abominam. Foi ela, que com os seus erros e virtudes despertou em nós, ao longo dos séculos, essa terrível arma de construção maciça que é a arte de pensar.
 

Harpad © 2004

   

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