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Poema da semana (Eugénio de Andrade)

Silhuetas de sombra
                   Harpad
© 2002

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     I

     com um olhar firme
     e pleno de escuma
     alcançamos essa suprema
     forma de solidão:

     o sal está nos teus cabelos
     languidamente acariciados pelo vento
     que apaga as cicatrizes por nós deixadas
     no areal e no tempo

     somos invadidos por

     um calmo silêncio de rosas
     um tumulto de sussurros
     o rugido marinho que longinquamente
     desaba a nossos pés

     sou assombrado por essa entidade,
     alguém como tu:
     - uma líquida mansidão de fêmea,
     essa, que me alcança
     e me seduz num sussurro.

 

     II

     ouve
     um inevitável abismo
     canta por mim.

     ele sim, do nada o entendeu
     a cada palavra e a cada gesto
     me aproximo em consciência
     desse vácuo
     longe de olhares
     longe das palavras
     perto da suavidade de seda
     do esquecimento.

     sou um novo Midas
     a cujo subtil gesto
     a realidade se desfaz em pó.

     há muito que perdi o suave regaço
     do espaço e do tempo que o rodeia

     as palavras não têm lugar
     ou mesmo cabimento
     num livro tornado em branco
     pelo esgar do esquecimento.

     eis quando Te esqueço
     e me entrego de peito descoberto
     à melíflua voz do oblívio.

     ouve
     canta por mim.
     somos da mesma matéria
     da tenra inépcia do vazio
     recebê-lo-ei de braços pendentes
     em penitência

     e receberei o meu legado.

                                       Harpad
                                       (2005)

 




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